domingo, 23 de março de 2014

Desabafos de uma Insatisfeita (Parte 2)

Eu precisaria de um mundo inteiro se fosse necessário expressar todos os momentos que já vivi com ondas quebrando. Ondas que quebram pela aquarela secular. Ondas que quebram com a rotina que polui tudo o que quer nascer ou renascer. 
 Uma oportunidade de virar o céu do avesso é se concentrar nas possibilidades. Se concentrar nos impossíveis, que são tão possíveis quanto nós não imaginamos. 
 Eu sei que o papel de uma garota insatisfeita não é dar possibilidades e nem muito menos encorajar alguém com conselhos de auto-ajuda. Eu aceito o meu legado e não penso muito em como resolver essas coisas, pois querendo ou não, levo vida de poetisa e aprecio a dor de amor. Eu sei que não há maior romantismo que suportar a dor pelo simples fato de não se imaginar sem a ter.  Eu sei que isso não deveria dar orgulho para ninguém, só que eu sei que isso é somente um clichê. Um clichê tão ridículo quanto qualquer outro. Um desnecessário tão grande quanto o fato de escrever sobre o delírio de amar. Sim, escrever sobre o amor é desnecessário. Eu admito que perco tempo. Eu admito que perco a hora e o minuto, o milésimo e o segundo, quando resolvo amar na conjugação textual. O poeta perde amor. Perde o tempo de sofrer, porque o sofrimento fica naquele papel riscado. Papel que dói na cor. Papel que dói no sabor das letras que são digeridas no ritual sagrado que é a leitura. Papel que chora as cicatrizes conjugadas em linhas tortas que expressam tormenta. 
 Eu sou insatisfeita e desabafo como quiser. Eu estilhaço meus pedaços e quebro meus cacos.  Eu grito minhas injurias, e peço por minhas angústias. Eu sonho meus pesadelos e vivo na tentativa de conjugar meus verbos. Eu testo a gravidade. Eu testo a tolerância. 
 Decidi simplesmente aceitar meu distintivo de insatisfação. Eu decidi aceitar meu legado de menina poetisa. 
  Menina... só menina.
(Victória Elsner)

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