Eu precisaria de um mundo inteiro se fosse necessário expressar todos os momentos que já vivi com ondas quebrando. Ondas que quebram pela aquarela secular. Ondas que quebram com a rotina que polui tudo o que quer nascer ou renascer.
Uma oportunidade de virar o céu do avesso é se concentrar nas possibilidades. Se concentrar nos impossíveis, que são tão possíveis quanto nós não imaginamos.
Eu sei que o papel de uma garota insatisfeita não é dar possibilidades e nem muito menos encorajar alguém com conselhos de auto-ajuda. Eu aceito o meu legado e não penso muito em como resolver essas coisas, pois querendo ou não, levo vida de poetisa e aprecio a dor de amor. Eu sei que não há maior romantismo que suportar a dor pelo simples fato de não se imaginar sem a ter. Eu sei que isso não deveria dar orgulho para ninguém, só que eu sei que isso é somente um clichê. Um clichê tão ridículo quanto qualquer outro. Um desnecessário tão grande quanto o fato de escrever sobre o delírio de amar. Sim, escrever sobre o amor é desnecessário. Eu admito que perco tempo. Eu admito que perco a hora e o minuto, o milésimo e o segundo, quando resolvo amar na conjugação textual. O poeta perde amor. Perde o tempo de sofrer, porque o sofrimento fica naquele papel riscado. Papel que dói na cor. Papel que dói no sabor das letras que são digeridas no ritual sagrado que é a leitura. Papel que chora as cicatrizes conjugadas em linhas tortas que expressam tormenta.
Eu sou insatisfeita e desabafo como quiser. Eu estilhaço meus pedaços e quebro meus cacos. Eu grito minhas injurias, e peço por minhas angústias. Eu sonho meus pesadelos e vivo na tentativa de conjugar meus verbos. Eu testo a gravidade. Eu testo a tolerância.
Decidi simplesmente aceitar meu distintivo de insatisfação. Eu decidi aceitar meu legado de menina poetisa.
Menina... só menina.
(Victória Elsner)